Por Lívia de Paula*

Em texto anteriormente publicado aqui no Blog, iniciei algumas reflexões a respeito de como temos pensado as questões de gênero dentro do contexto das famílias que acolhemos no SUAS. No mês passado, avançamos um pouco nesta tarefa trazendo questionamentos sobre nossa atuação com as mulheres que chegam aos nossos equipamentos.[i] Considero esta temática fundamental para o trabalho da Psicologia dentro da Política de Assistência Social, principalmente nos CREAS, tendo em vista que a maioria das violações que acolhemos estão alicerçadas em aspectos referentes às relações de gênero.

No intuito de continuar compartilhando indagações sobre o assunto, pretendo trazer hoje algumas considerações sobre nossa prática frente às masculinidades. Coloco a mim mesma um desafio com esta proposta: como falar do masculino sendo mulher? Atualmente, assistimos a muitos debates e “embates” sobre o “lugar de fala”: pode uma mulher falar de masculinidades? Pode um branco falar de preconceito racial? Pode um homem contribuir com as lutas do feminismo? Sobre esta questão, Adriano Senkevics, no texto “As armadilhas do “lugar de fala” na política contemporânea”, publicado em seu Blog Ensaios de Gênero, traz apontamentos bastante pertinentes:

Para além disso, o “lugar de fala” é usualmente tomado como “autoridade de fala”, como se só quem vivesse uma experiência (no lugar subalterno) pudesse discutir aspectos que a circundam. Vejam só: não é preciso ser negro para falar de racismo, na medida em que debater o racismo, ou as relações étnico-raciais em geral, envolve trazer à tona dimensões que também tocam as pessoas brancas, amarelas e de outras cores e raças. Recusar esse pressuposto é ignorar justamente o aspecto relacional da construção social das diferenças. Nunca é demais reiterar: falar sobre algo ou alguém não significa falar em nome de algo ou alguém. Das experiências individuais, próprias de cada um, devemos saltar para a reflexão coletiva – esta é a base do campo político.[ii]

Tentando então este salto para a reflexão coletiva, vamos falar sim de masculinidades. Se os homens são parte das famílias que acompanhamos e se a Psicologia é uma profissão predominante feminina, quem, senão nós, construirá um conhecimento sobre o assunto?   Não podemos nos furtar desta questão, mesmo correndo o risco de críticas ancoradas no embate do “lugar de fala”.

A primeira pergunta que me ocorre sobre o assunto é: os homens chegam ao SUAS? Como? Em minha prática na PSE (Proteção Social Especial), observo os homens chegando principalmente no papel de agressores, adolescentes em conflito com a lei ou como pessoas em situação de rua. E no seu equipamento, como os homens têm chegado? Sua equipe tem falado sobre isso? Estas questões me interessam por perceber que estamos silenciados quando o assunto é a vivência das masculinidades. Os homens nos chegam, mas e nós? Conseguimos chegar até eles?

Muitas são as questões que podem ser pauta para construções teórico-práticas no que tange às masculinidades. Podemos começar pensando sobre a educação que os meninos recebem em nossa cultura machista. Nossos homens são ensinados a dominar, a exercer autoridade sobre o outro em qualquer que seja a situação, e principalmente nas relações afetivo-sexuais: “Se não for assim, não é homem.” “Homem não chora.” “A mulher é propriedade do homem.” Nossos homens são estimulados desde criança à agressividade e violência: “Homem não leva desaforo pra casa”. “Tem que ser valente e corajoso”.  É necessário que compreendamos isto para que ampliemos nosso entendimento acerca de como as representações e estereótipos sobre o papel masculino dentro das famílias é construído e formatado cotidianamente em nossa sociedade.

São estes mesmos homens, educados sob a égide da dominação masculina, que estão inseridos em nossos serviços quer como agressores, infratores, pessoas em situação de rua, e em menor número, também como vítimas de violência. Pinto Junior (2005) coloca que o fato da subnotificação das situações de violência sexual contra meninos ser ainda maior do que a subnotificação dos casos envolvendo meninas também pode encontrar alguma compreensão na forma como os meninos são criados. Uma denúncia dessa natureza traz descrédito e dúvidas quanto à identidade sexual da vítima. Segundo ele, há também uma ideologia, tanto entre o senso comum quanto entre a ciência, de que os meninos estão imunes a esta violação por serem “machos”, e que, quando passam por esta situação é por terem dado permissão ou desejado que o fato ocorresse.[iii] Nas suas contribuições, encontramos ainda outras menções ao processo de socialização dos homens:

[…] o medo do estigma da homossexualidade, os sentimentos ambivalentes, a atribuição de culpa aos meninos e a própria “cegueira” da sociedade podem fazer que o número de casos reportados seja muito pequeno. Além disso, os meninos são socializados no sentido de não demonstrar qualquer tipo de fraqueza ou de medo. (PINTO JUNIOR, 2005, p. 44).

Partindo dos aspectos aqui elencados, percebemos o quanto é imprescindível que nós, técnicos do SUAS, nos debrucemos sobre os processos de masculinidade e sobre as experiências dos homens que acolhemos. Investigar e entender as vivências masculinas nos territórios e nos contextos familiares é condição para um trabalho efetivo de fortalecimento de vínculos familiares e comunitários.

Atualmente, já existem estudos e pesquisas que buscam alternativas para romper com os paradigmas de educação de gênero que estamos discutindo. Um destes estudos é o de Januário (2016), que nos chama a atenção para o caráter pluralista e mutável da noção de masculinidade:

Importa também destacar que não obstante numa mesma sociedade, as masculinidades são múltiplas, definidas por critérios como a idade, classe social, orientação sexual ou etnia (Nixon, 1996) sendo passíveis de mudar ao longo da vida de uma pessoa. As características que definem a masculinidade, seja na vida privada ou na vida pública, podem variar bastante de uma cultura para outra. (JANUÁRIO, 2016, p.111).[iv]

Além das pesquisas acadêmicas, existem algumas iniciativas que podem contribuir para qualificar nosso trabalho na Política de Assistência Social. A página do Facebook “Já falou para seu menino hoje?” é uma dessas. Criada pela pedagoga Caroline Arcari e pela psicóloga Nathália Borges, a página é sempre alimentada por postagens propulsoras de reflexões sobre as questões de gênero. Outra ferramenta interessante é a página do Instituto Papai, que disponibiliza muitos materiais para quem se interessa pelo tema.[v]

Termino a contribuição deste mês com a constatação de que as indagações aqui colocadas nos chamam à ação. Trabalhamos com famílias. Pensamos sobre famílias. Que pensemos também sobre seus membros, nas suas mais diversas pluralidades. É necessário um desvelamento sobre a vivência da masculinidade. Um desvelamento que pode nos auxiliar muito na minimização dos ciclos de violência e no alcance dos demais objetivos preconizados pelo SUAS.

Finalizo pegando emprestadas as palavras de Verucci (1986), que sintetizam de forma poética, aquilo em que eu acredito:

Porém, acredito firmemente que precisamos trabalhar juntos, homens e mulheres, para alcançar um estágio mais justo de vida, uma organização social mais justa para ambos, quaisquer que sejam suas preferências sexuais. Acusa-se as feministas de serem inimigas dos homens. Na verdade, existem muitas que são, e razões não lhes faltam. Porém […]grande maioria das mulheres conscientes deste país sabe que precisamos conquistar o caminho novo ao lado de nossos companheiros. [vi]

[i] Links para acesso aos dois textos: Texto 1: Entre o concerto e o conserto: qual tem sido nosso foco de trabalho com famílias no SUAS? https://craspsicologia.wordpress.com/2016/11/28/entre-o-concerto-e-o-conserto-qual-tem-sido-nosso-foco-do-trabalho-com-familias-no-suas/ Texto 2: Mulheres que chegam ao SUAS: que histórias elas podem contar? https://craspsicologia.wordpress.com/2017/03/08/mulheres-que-chegam-ao-suas-que-historias-elas-podem-contar/

[ii] Sugiro a leitura do texto na íntegra. Pode ser acessado neste link: https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2017/01/12/as-armadilhas-do-lugar-de-fala-na-politica-contemporanea/

[iii] PINTO JR, A.A. Violência Doméstica contra Meninos: um estudo fenomenológico. SP: Vetor Editora, 2005.

[iv] JANUÁRIO, S.B. Masculinidades em (re)construção: Gênero, Corpo e Publicidade. Covilhã: Ed. LabCom.IFP, 2016.

[v] Link para a página “Já falou para seu menino hoje?”:  https://pt-br.facebook.com/jafalouparaseumenino/ Link para a página do Instituto Papai: http://institutopapai.blogspot.com.br/

[vi] VERUCCI, F. Machismo e os direitos da mulher. In: Diversos Autores. Macho Masculino Homem. SP: L&PM Editora, 1986.

Imagem: Charge de Clarissa Ferreira no texto de sua autoria: ( SOBRE O FESTIVAL DA BARRANCA)

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