Neste período conturbado e vexatório das eleições, eu li várias vezes nas redes sociais, frases de muitas pessoas sobre o exercício do voto. Alguns exemplos:

Pronto, já exerci minha cidadania”,

ELEIÇÕES

Partiu, cumprir meu dever de cidadão

Pronto, fiz minha parte

“Partiu eleições, fazer minha parte”.

Eu ficava com vontade de escrever o desconforto que me causava ao constatar que aquela pessoa pensava tão raso sobre o voto e a cidadania, mas como é prudente respirar e esperar o ímpeto passar para também não escrever bobagem só me restava o encucamento: meu Deus [sim nessas horas apelo para Deus…] se a escolaridade não foi suficiente para que essas pessoas pensem diferente, o que será capaz de mudá-las?

Eu sei que escolaridade não é sinônimo de conhecimento, mas é estarrecedor a constatação de que a universidade não é suficiente para fazer novos pensadores e consequentemente novos e melhores cidadãos. (Claro, processo que deveria ter início lá na educação básica, desde a educação infantil).

Mas se o tempo na universidade não foi capaz de transformar a visão de mundo, é porque a pessoa não teve acesso a espaços de reflexão, aprendizado e passou os ensinos fundamental e médio fazendo regra de três e equação do segundo grau, se foi bom aluno, sabe bastante o verbo To Be e remete filosofia ao tempo daqueles pensadores dos séculos passados.  Sim, eu escrevo sobre as pessoas que se julgam “sabidas”, intelectualizadas e sobre os pseudo-artistas.

É impossível todos pensarem e agirem da mesma forma, não há uma verdade absoluta e muito menos uma única visão de mundo. Eu sei disso, e não é isso que estou reclamando aqui.

Continuando sobre os autores dos equívocos de cidadania. Eu não falo daqueles que não tiveram acesso a escolaridade, ou se tiveram não aprenderam devido precariedade ou por falta de base e acessos mínimos a outros espaços de conhecimento – podem até ter formado no ensino médio, o que já é motivo de orgulho das famílias e do governo que terão novas estatísticas para o ensino no Brasil. Porque faço essa separação? Porque as pessoas que não tiveram espaço para o conhecimento e escolaridade têm um crédito a mais para se equivocarem sobre o mundo. O que é totalmente reversível e não precisa de faculdade para isso!

Voltando para o real motivo deste texto, se cidadania não é o voto em si mesmo, o que é cidadania? Cidadania é a introjeção de que você não vive isolado no mundo e que suas ações refletem no complexo sistema da vida em sociedade.

E quando menciono vida me refiro à família, ao meio ambiente, ao urbano, ao rural, à educação, à saúde e ao direito/justiça (com todas as concepções de direitos que organizam a vida na terra).

Por isso, simplificar o voto ao ponto de se sentir o mais cidadão porque votaria mesmo se não fosse obrigado, reflete o descompromisso com tudo o que chamei de vida acima.

Seria o paraíso se o nosso dever de cidadão se resumisse ao voto!

 OBJETIVOS DO MILENIOO que vem antes e depois do voto? O trabalho árduo de viver. Sim, viver dá uma trabalho descomunal, e nossa ilusão de liberdade não nos autoriza a viver alheios aos outros. Cidadania é a capacidade de altruísmo e a tomada de responsabilização pela nossa vida e pelo sistema ao qual estamos interligados na vida globalizada.

Vejam que o voto está no percurso do exercício da cidadania, sendo uma das ferramentas para exercê-la. Mas antes de votar e após o voto devemos trabalhar duro para sabermos o que estão fazendo e o que irão fazer, sim, porque como já citei, o que eles farão refletirá diretamente em nós – estamos intrinsecamente e imbricados neste sistema desde que nascemos.

Assim, não basta atribuir o poder a alguns representantes, e escrever com orgulho: “fiz minha parte”! ora, votar não nos tira o direito e nem o poder, apenas delegamos parte deles.

O trabalho árduo é monitorar, avaliar e propor mudanças para o bem de todos. Sabemos que os problemas são muitos, porque a concepção equivocada de cidadania faz com que estejamos jogados nas mãos de oportunistas e de supostos representantes do povo.

E por que publiquei este texto aqui no Blog? sendo você detentor da frase ou que ainda não tinha refletido sobre esse discurso “votei, fiz minha parte [agora é com eles]” como é que você vai atuar nas políticas públicas para promover a autonomia e o protagonismo? Política que tem como objetivos o acesso a direitos e o exercício pleno da cidadania.

O que está para além do voto? Está a responsabilização de viver em sociedade, o trabalho duro começa aí, e não adianta dizer:  “Vocês escolheram o governo, então não reclamem” – sobre as diversas pessoas que pensam assim, será que participam de Conferências, dos Conselhos de Direitos, e exercem o Controle Social? Temo que não.

É fundamental a participação nas Conferências Municipais (Estadual e Nacional), pois sãos espaços que visam a democratização da gestão pública. É justamente nestes espaços que devemos exercer a democracia e cidadania. É trabalhoso? Muito.

Mas a vida não é um parque de diversão, por isso, tenhamos coragem de defrontá-la e não podemos esperar que os outros [os representantes] nos deem boa vida. Se vivemos em sociedade, a “vida boa” somos nós que fazemos e é um erro delegarmos nossa “vida qualificada” ao outro.

A participação que faça jus ao objetivo do encontro, que é democratizar as ações e eleger prioridades, não pode resumir na banalização da presença, como assinar uma lista e levantar o crachá quando solicitado [o que acontece muito quando há uma participação quase que por obrigação dos trabalhadores da área representando governo].

E a sociedade?

Eu sou esperançosa, quem sabe não começamos a ler – “Partiu XV Conferência de Saúde” – “Partiu eleições dos novos conselheiros do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente”, porque cidadania não começa e nem termina com o voto.

E sobre os pseudo-artistas que fazem um desserviço ao povo? Então, a primeira regra da qualidade do pensamento e da reflexão: não acredite em tudo que ouve ou vê. Não é para se tornar neurótico, mas a velha pulga atrás da orelha já está de bom tamanho.

Mafalda e cidadania

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