Faço uso desse espaço para reproduzir um texto – Publicado no jornal  impresso da região Eunápolis/Porto Seguro, Folha Popular maio de 2010 – que elaborei acerca da banalização da violência pelos sites de notícias em Eunápolis e cidades vizinhas.  Discuto sobre a relação que a mídia local e os cidadãos eunapolitanos estabelecem com as diferentes formas de violência. Sugiro ainda, que os sites que publicam os corpos desfacelados sem qualquer polimento estão em desacordo com os Direitos Humanos e contrariam os direitos das famílias expostas. Assim, estão reproduzindo a violência e produzindo uma outra, não menos grave: a violência simbólica.

O texto está na íntegra.  Leia e deixe sua opinião!

O Retrato da Violência Eunapolitana e Cidades vizinhas

A violência urbana que acomete Eunápolis está tomando uma proporção desenfreada, a qual pode ter várias leituras. Sugiro que a mesma é proveniente de diversos fatores, como falta de segurança pública, fragilidade econômica, proliferação das drogas, vulnerabilidade social, e às características socio-históricas e culturais advindas da formação desta cidade que já foi o maior povoado do mundo.

Este povoado foi administrado por dois municípios até sua emancipação, e sua formação se deu através da vinda de cidadãos originários de diferentes regiões da Bahia e de outros Estados, os quais chegavam para trabalhar sonhando com a expectativa instaurada em torno da fama do maior povoado do mundo. A junção destes fatores culminou com a fragmentação da identidade social do cidadão eunapolitano.

Após esse breve apontamento histórico, devo retomar à principal questão que venho discutir: a banalização da violência urbana, especificamente em Eunápolis/BA 

Há meses assisto atônita às manifestações da população eunapolitana frente à violência urbana que acomete Eunápolis e cidades circunvizinhas e que é estampada nas páginas de notícias via internet. Enquanto cidadã e psicóloga me sinto no mínimo intrigada diante de tamanha popularização da divulgação das imagens pelos sites de notícias, dos indivíduos mortos através de diferentes formas, como acidentes, assassinatos, latrocínios, entre outras.

Assim, meu objetivo é provocar uma reflexão acerca da veiculação dessas imagens pelos sites de notícias online. A que e a quem servem essas publicações é o que devemos questionar. As fotografias, bem como suas publicações não poupam ninguém e não pedem passagem. Registram e mostram tudo, como se isso fosse extirpar a violência. Mas há um paradoxo, pois não se elimina uma violência com outra, pelo contrário, propaga-a nas mais diversas e tênues facetas.

As referidas publicações têm audiência garantida, e muitas vezes é a própria comunidade atormentada pela dor da perda e pelos rumos que a violência dita na vida das pessoas – crianças, adolescentes, adultos ou idosos – que clicam em busca da imagem dos corpos mortificados. Ver a foto 3×4 de um indivíduo que perdeu a vida, não satisfaz a curiosidade mórbida e sádica, ou melhor, não condiz com a realidade monstruosa e desumana vivenciada pelos cidadãos, que é nesse caso representada pelo desfacelamento do corpo alheio. Este que passa a ser objeto de espetacularizaração da violência.

A sociedade que é acometida pela violência, se torna espectadora assídua da representação da violência disponibilizada pelos sites de notícias.  Assim a reprodução desenfreada, sem o mínimo de polimento por parte de quem produz as imagens e por quem as publica e mais o consumo das mesmas pela sociedade em geral culminam com a banalização da violência e de sua conseqüência mais grave, a morte.

A estranha e questionável relação da sociedade com as diversas formas de violência são conhecidas desde a antiguidade, obviamente com as características histórias e culturais de cada época, porém, mesmo diante do avanço dos direitos humanos que buscam garantir os mínimos da dignidade humana a sociedade ainda perpetua uma relação antagônica com a violência e com um agravante: a sua banalização.

Se por um lado a sociedade clama por paz e justiça – mesmo que com seus rubores discursos, por outro, ela perdura a violência, neste caso através da publicação contestável e desrespeitosa das imagens dos corpos mortos – o que contribui ainda com a “coisificação” do indivíduo, e não isenta dessa perduração, está a sociedade que consome as tais imagens sem tomar consciência de sua atitude violenta e mórbida.

A violência está atrelada à convivência social – é impossível pensar uma sociedade sem violência, o que mudou são as aparições das mais diversas e cruéis manifestações da mesma. Manifestação esta que é influenciada pelos diversos fatores, como socioeconômicos, históricos, ambientais e culturais de cada época.

É inadmissível que junto com a perda violenta de um membro familiar, se vá o mínimo de direito dessa família, pois ela se quer é consultada sobre a autorização ou não sobre as publicações das imagens. Como conseqüência dessa exposição, a família passa a ser estigmatizada e identificada pela atrocidade de uma violência que se alastra entre as facetas enganadoras do capitalismo.

Os canais de notícias sejam eles, impressos ou via internet, são um exemplo destas facetas, pois estão muito mais ligados ao produto do que a função de democratizar e garantir o direito à informação de qualidade á todos os cidadãos. Constata-se uma reprodução da violência para vender mais violência, nesse caso, a violência simbólica, que reproduzida através das publicações das imagens mortificadas é tão grave quanto, pois destrói o resto da dignidade da família e de seus direitos, o que contribui com intoleráveis e danosas exclusões sociais, intensificando assim, o sofrimento ético-político das famílias expostas.

Assim, cabe aos cidadãos em geral, repensar a sua relação com a violência: até quando farão do desfacelamento das famílias vítimas de violências, um espetáculo. Aos meios de comunicação, além de reverem seus princípios e valores éticos devem refletir que a publicação dessas imagens que denunciam as marcas da violência, ao invés de informar está formando cidadãos alienados pela sua própria história.

 

Rozana Maria da Fonseca
Psicóloga
rozanafonsecapsi@hotmail.com
@rozanafonseca

  

 

 

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